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Ensaio

Segredos Que Habito por Consuelo Schlichta

Por: Consuelo Schlichta Fevereiro, 2017

O que Segredos que habito nos dizem sobre as práticas artísticas contemporâneas? Quais as intenções de suas autoras?

Pode-se dizer que essas três mulheres-artistas, ao proporem novas visualidades sobre mundo, amarrando-as aos saberes da arte, inventam um lugar entre o mundo místico e o mundo real, onde o ordinário transforma-se no extraordinário. Indagam sobre a natureza do campo artístico borrando as fronteiras entre arte e ofício, extraem segredos dos fios, dos bordados, dos tecidos, das pedras e das operações possíveis de costurar, bordar, alinhavar, cerzir, dobrar, franzir, amarrar, pendurar, urdir.

As artistas, no entanto, tiram esses fazeres do seu imediatismo cotidiano, reelaboram essas operações naturalizadas como atividades femininas. Mas não partem do nada. Baseiam-se em uma trama interdisciplinar de conhecimentos da história e da arte, da mitologia e da arqueologia, em saberes que circulam entre pessoas comuns, em visões, valores e tradições de centenas e centenas de mulheres que ressurgem do passado, que habitam cidades ou vilarejos.

Claudia, Giovana e Leila, assim procedem: com tecidos de diferentes matizes brancos, transparentes, leves, mas incrivelmente volumosos, começam criando um lugar-tempo na forma de uma tenda, sob um céu com nuvens tramadas em fios dourados. Uma tenda, porém, não é uma habitação permanente, assim pode-se dizer que fala do desapego. Aparentemente suspensas, as nuvens e a tenda são fortemente amarradas por fios presos ao teto e paredes. Quando densas, as nuvens anunciam a chuva, nessa condição, estão carregadas do mistério intocável das crenças divinas.

A disposição dos fios faz alusão as garras ou imensas pernas de uma aranha, considerada a grande tecelã do destino. Da mesma maneira, as artistas dedicam-se à fiação.

Na extremidade dos fios, pedras, prenhes de segredos que as artistas habitam. Pedras ou pés fincados no chão? Não importa. O que importa é que aterram esse lugar-tempo, separando-o do mundo. Mas não só, com as pedras, as artistas constroem uma arquitetura de poder. Aliás, extraindo-se sentidos de sua forma escultural, as pedras aumentam esse poder. Encapsuladas, termo usado pelas artistas, cobertas por crochê, as pedras carregam um inventário arqueológico, consciente ou inconsciente, profundamente articulado com as memórias e as referências visuais das artistas: desde mundos cobertos de jardins de crochê até mundos habitados por figuras femininas.

Modeladas, afiadas, as pedras transformam-se em ferramenta, arma ou abrigo, como as cavernas. Acredita-se que a espírito dos mortos permanece nas pedras tumulares, que uma pedra pode representar um deus, um lugar de culto. Com a pedra se nomeia períodos da história, a exemplo da Idade da Pedra. As pedras ainda nos comovem, mesmo depois de tantos mil anos. As pedras, para as artistas, são objetos de inspiração e transformam-se em escultura, armadura protetora, pés que demarcam o espaço, que se agarram ou grudam-se nele.

A tenda, aberta, conduz nosso olhar, convida-nos a entrar e nos deixamos levar do mundo exterior ao interior e ali ficar. Transposta a passagem, encontramo-nos diante de uma imagem arquetípica do simbólico feminino: a mulher que junta ossos no deserto, a permanente observadora interna, a sábia, a visionária, a inspiradora, a intuitiva, quem sabe a inventora? Ou será a ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior?

No fundo, existe muito de comum entre o arquétipo da mulher que vive desde sempre e que tece os destinos, como uma aranha, e Claudia, Giovana e Leila. Herdeiras de fazeres artesanais, elas desequilibram o convencional, rompem fronteiras que separam práticas consagradas e outras em posição menos privilegiada. Para as artistas, arte têxtil não é uma classificação é uma declaração política. É nisto que elas se diferenciam e guardam afinidades: através da fatura e da fatura na arte, com agulhas e fios, articulam camadas do real e da ficção, desenham bordados ou bordam desenhos extraídos de um universo gráfico que habita provavelmente os próprios sonhos.

Daí o incômodo. Pois, movidas pelo encontro entre o desenho e o bordado, a pintura e a tapeçaria, elas ativam novos sentidos da arte, em especial sua potência política: a não subordinação às linhas divisórias, o questionamento dos estereótipos, fazendo-nos rever a idéia do que é melhor, mais avançado, contemporâneo.

O que nos chama a atenção é o modo pelo qual misturam um fundo comum a tudo e a todos, natureza e sociedade sem hierarquias, transformando o impossível em possível. Com todas essas referências e um espetacular domínio dos fazeres artesanais, as artistas atuam nesse campo entre os fios de bordar e a linha no desenho, os bordados em profusão de cores e a pintura, as camadas volumosas de tecidos e a escultura. O procedimento escultórico e as estratégias de exploração do espaço são evidentes nas doses excessivas de bordados com fios multicolores, assim como no percurso narrativo e a cena cuidadosamente montada no interior da tenda. Tudo ocupa um lugar nessa montagem: a xamã, o colibri, o cervo, os amantes.

A Grande Xamã parece emergir das transparências dos tecidos, pronta a servir na eterna busca por respostas. Sobre seus longos cabelos uma pena, que simboliza a clarividência e a proteção. Para os povos primitivos as penas representavam um símbolo de poder.

A Xamã está acompanhada por um pequeno cervo e um pássaro, que pousou sobre sua mão direita. O pássaro, um colibri, é capaz de voar para trás e velozmente, por isso é considerado um mensageiro, um guardião do tempo. Por isso, da continuidade simbólica entre passado e futuro, as artistas propõem novas combinações, trazem à superfície o que está imerso e oculto, a indeterminação na arte, as dúvidas que perpassam a práxis artística, levando-nos a por em suspeita as práticas consagradas, anteriormente bem sucedidas. Vivem o embate permanente entre subjetividade e os desafios que os procedimentos materiais impõem e que se apresentam como obstáculos à materialização das invenções humanas. Para as artistas, arte é trabalho, mas é também fantasia cristalizada e exige boa dose invenção.

As incertezas acompanham as escolhas, na verdade, no trabalho criador tornaram-se a energia propulsora na busca por respostas. E por estranho que possa parecer, uma busca permanente. No caso de Claudia, Giovana e Leila, as respostas orientadoras nascem do campo místico: lugar do imaterial, que nada mais é do que o condutor do auto-reconhecimento ou daquilo que as amedrontou durante boa parte da própria existência. A resposta das artistas para as dores singulares alçadas ao universal materializa-se na tenda em voil, tecido transparente, que contrasta com a intensidade das amarras, a leveza em contraste com o peso das pedras.

Os desejos negados, razão de muitas lutas, estão incorporados nos amantes, casal que emerge de uma paisagem tropical em bordado fechado, extraído de uma tapeçaria. O pequeno cervo, que nos olha fixamente, parece sair detrás desse pedaço de paisagem. Animal considerado o mediador entre céu e a terra, o cervo simboliza os ciclos de crescimento e renascimento e anuncia a luz do amanhecer.

Então, mais uma vez os contrastes: o dia e a noite, os fios brancos realçando as áreas mais escuras ou fechadas com bordados. No aspecto etéreo dos tecidos e nas áreas abertas igualmente os limites do interno e externo.

As artistas se propõem à construção de percursos, sobretudo da presença das mulheres na arte. E se a existência de certo fascínio pelas questões ligadas ao enigma do desconhecido as encanta, elas claramente a assinalam. Afinal, não é esse o desafio? Se a arte vai além da imediatez e intensifica o humano, é aí que as artistas querem estar.

Consuelo Schlichta
Professora no DeArtes da UFPR e Doutora em História