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Seminário

Corpo fluido: entre narrativas, paisagens e questões de gênero

Por: Leila Alberti Março, 2022

Durante o processo de criação da obra Descanso Entre Desejos e Saudades é Água Leve em Um Sonho o elemento água surgiu com frequência revelando às artistas Giovana Casagrande e Leila Alberti significados e simbologias nas memórias pessoais. Percebemos que nosso contato com este elemento aguçava nossos sentidos e percepções com nossos corpos e tecemos em fios e texturas o imaginário da obra para a exposição o Corpo Na Linha de Borda. Nossa intenção é mostrar a beleza e a força do feminino livre e único; uma celebração de quem somos em meio a um mundo individualista, competitivo e ainda opressor com as mulheres.

Este texto que apresento faz parte de um movimento de interesse em introduzir o crochê e o bordado na produção em arte num projeto em parceria com a artista Giovana Casagrande. Uma parceria que ultrapassou uma década de produção, exposições e o lançamento de um livro; Bordaduras – Processo Construtivo da Exposição Coisas de Alice. Nosso interesse em utilizar fios vem, para ambas, da presença constante dessas linguagens manuais em nossas infâncias. Reconstruir memórias, e em especial, as memórias de meninas observando mulheres produzindo peças biográficas no cotidiano doméstico, e compreender a importância das relações afetivas, entre pessoas, por meio do fazer crochê e o bordado e seus reflexos positivos para a memória coletiva. A memória configurou-se num tema constante em nossa produção e no projeto O Corpo na Linha de Borda, processo durante período pandêmico 2020/21 foi amplificada pela centralidade e fragilidade do corpo diante de um perigo constante de contágio e de muitas perdas. Fez com que este projeto processual expositivo tivesse campos alargados de pesquisa para o grupo de artistas envolvidos. Giovana Casagrande e eu decidimos apresentar o processo de criação da cama com um colchão de bordados colocada sobre as porcelanas encapsuladas pelo crochê acomodada entre outras 11 obras seguindo uma curadoria expográfica adequada à organização de leitura visual e conceitual amparada no corpo da casa: janelas, portas, sala e ambientes íntimos – quartos. A exposição aconteceu de dezembro de 2021 a fevereiro de 2022 no Museu Municipal de Curitiba. Neste texto o fio condutor percorre pelas discussões do imaginário das águas, assim como a geografia que vai desenhando no percurso do céu, passando pelo corpo até encontrar a corredeira no solo.

"Os corpos femininos interagindo com a natureza em variadas geografias e a águas imaginárias, em diversos estados, transitando em torno de um vazio central. "

Os corpos femininos e a água

Lembro que quando encontramos, Giovana e eu, esta cama antiga numa loja de móveis usados, no centro histórico,  chovia em Curitiba. Um sentimento de encanto nos arrebatou e em menos de 30 minutos já tínhamos definido a existência dela em nossas práticas de criação. A água já nos acompanhava desde o primeiro encontro com o que viria a se transformar em narrativa de bordados. Os corpos femininos interagindo com a natureza em variadas geografias e a águas imaginárias, em diversos estados, transitando em torno de um vazio central.

Na história da humanidade as águas imaginárias transbordaram significações e simbologias no universo cultural do ser humano e surgem como símbolo de contradições. A existência e manutenção do corpo, seus movimentos e seu aprendizado erótico. Isto é, de que forma a água perpassou as transformações da relação dos indivíduos com o seu corpo? A relação entre água e Eros é percebida como elemento importante do aprendizado erótico do corpo, tendo em vista as sensações corpóreas, a natureza e a utilização da cama no cotidiano. Sendo assim, o contato com esse objeto é uma das possibilidades de se desfrutar a intensidade dos sentidos? A proximidade com a água possibilita a transgressão? O bordado é também um modo de transgredir?

Para nós o bordado é uma forma de cartografar, de registrar as marcas instauradas no corpo. Fomos percebendo o bordar como ato performático em nossos cotidianos, reconhecendo sua potência em materializar histórias de vida e imaginação; de vivê-los –  como também considerando as consequências provocados pelo ato de bordar. A interferência do bordado sobre esse território faz parte de um processo de ressignificação, o feminino e seu lugar de pertencer, onde a linha e a agulha entram desenhando afetos, marcando os processos que o corpo passa.

"[...] as nossas experiências diárias produzem geografias de ações e organizam nossa caminhada, o cotidiano é um lugar praticado. O cotidiano contribui para a configuração de espaços, de lugares e paisagens. Espaços e paisagens que se configuram a partir da interação entre objeto, sujeito e lugar. Na fusão e interpenetração do espaço interior-exterior." (GUIMARÃES)
Obra de Leila Alberti
Descanso Entre Desejos e Saudades é Água Leve em Um Sonho, Curitiba, 2022.

Ao iniciarmos nosso projeto Bordaduras queríamos explorar modos de utilizar o bordado como forma de cartografar, de registrar as marcas instauradas no corpo. Percebendo o bordar como ato de força coletiva, ancestral, e também parte essencial da realidade cotidiana. A interferência do bordado sobre esse território faz parte de um processo de ressignificação, de retomada desse lugar em que nos sintamos participativas, onde o bordado nos remete ao acolhimento e afeto.  Aceitamos e compreendemos melhor nossos corpos marcados no corpo do tecido.

Na narrativa que se observa, sobre a cama, há um grande paradoxo ao acompanhá-la de perto: quanto mais se olha para dentro da cama, para os bordados mais encontramos algo de reconfortante e acolhedor em memórias. Se o corpo trás significados de superfície, dentro e de fora, se ele é essencialmente paradoxal, é também um corpo profundo, pleno de imaginação non-sense,  com um avesso que prolonga o direito – e vice-versa – fazem com que todo o devir e os seus sentidos conflitantes subam até superfície palpável. Como artistas registramos nossas vivências e sentimentos, utilizando-nos de elementos que aludem ao universo “feminino”, como o bordado, crochê e porcelanas. No entanto, esta ideia de delicadeza e de “feminilidade” em águas calmas circundantes é confrontada pela fenda no centro da cama e a sustentação dela feita por frágeis porcelanas no solo, o que interfere na relação de sentidos transmitidos.

As águas imaginárias são tema de Bachelard (1998), em A Água e os Sonhos, ensaio de estética literária, em que a maioria dos exemplos são tirados da poesia e da mitologia, objetivando determinar a substância das imagens poéticas. Para tanto o autor evoca imagens superficiais do elemento água dedicando-se às águas claras, às águas brilhantes que fornecem imagens fugidias e fáceis.

Evoca também características profundas da água imaginária - as águas dormentes, as águas mortas, as águas pesadas no devaneio de Edgar Alan Poe:

"Toda água primitivamente clara é para Edgar Allan Poe uma água que deve escurecer, uma água que vai absorver o negro sentimento [...] Lendo Poe, compreendemos mais intimamente a estranha vida das águas mortas, e a linguagem ensina a mais terrível das sintaxes, a sintaxe das coisas que morrem, a vida que morre " (BACHELARD, 1998, p. 49).

Este autor estuda também a composição da água com outros elementos da imaginação material, principalmente a terra e o fogo. Discorre sobre as imagens impregnadas de mitologia que animam as obras poéticas na maternidade das águas, na sua pureza e também nas águas masculinas, violentas. As artes banham-se nos símbolos.  A valorização feminina, sensual e maternal da água foi cantada pelos poetas românticos alemães. É a água do lago, noturna, leitosa e lunar onde a libido desperta:

"A água, essa filha primeira, nascida da fusão aérea, não pode renegar sua origem voluptuosa e, na terra, ela se mostra com uma celeste onipotência como o elemento do amor e da união [...]. Não é em vão que os sábios antigos procuram nela a origem de todas as coisas [...]. E as nossas sensações, agradáveis ou não, não são mais, afinal, que as diversas maneiras de escoar em nós dessa água original que existe em nosso ser. O próprio sono não passa do fluxo desse mar invisível, universal, e o despertar é o começo do seu refluxo." (NORVALIS, apud CHEVALIER; GHEERBRANT, 1998, p. 21).

Nas tradições judaica e cristã, a água simboliza, primeiramente, a origem da criação: fonte de todas as coisas ela é mãe e matriz; é útero. Mas, como é fonte de vida, é também fonte de morte. É criadora e é destruidora. Todo o Antigo Testamento celebra a magnificência da água. Na Bíblia os poços, as fontes, os rios são agentes de fertilização de origem divina, trazendo consigo a fecundidade e manifestando a benevolência divina. Os poços são lugares sagrados e perto deles nasce o amor e os casamentos principiam. É também símbolo de segredo, de dissimulação da verdade. As fontes são o símbolo da maternidade. Sua sacralização é universal, pois constituem a água virgem e, em muitas culturas são protegidas por tabus.

O simbolismo do rio é, ao mesmo tempo, o da fertilidade, da morte e da renovação. Entre os gregos os rios eram objeto de culto, quase divinizados, como filhos do Oceano e pais das Ninfas. Não se podia atravessá-los senão após cumpridos os ritos da purificação e da prece:

Não deveis atravessar jamais as águas dos rios de eterno curso, antes de ter pronunciado uma prece, com os olhos fixos em suas correntes magníficas, e antes de ter mergulhado vossas mãos nas águas agradáveis e límpidas. Aquele que atravessar um rio sem purificar as mãos do mal que as macula, atrairá sobre si a cólera dos deuses, que lhe enviarão, depois, castigos terríveis." (HESÍODO)

"A alma humana é como a água: ela vem do Céu e volta para o Céu, e depois retorna à Terra, num eterno ir e vir." (GOETHE).

O corpo no espaço da cama estabelece um desejo por permanência. Um espaço de repouso e ao qual é dedicada boa parte do tempo em vida. O colchão coberto com pequenas cenas do cotidiano, de mulheres imersas na natureza, invoca as mudanças no passar do tempo. Um ciclo como o da água; sair da natureza, atravessar o corpo e retornar ao solo... e ao céu.

A viagem transforma o corpo, o "caráter", a identidade, o modo de ser e de estar... Suas transformações vão além das alterações na superfície da pele, do envelhecimento, da aquisição de novas formas de ver o mundo, as pessoas e as coisas. As mudanças da viagem podem afetar corpos e identidades em dimensões aparentemente definidas e decididas desde o nascimento (ou até mesmo antes dele) (LOURO, 2008, p. 15).

Descanso entre desejos e saudades é água leve em um sonho.

Existe uma memória individual que é aquela guardada por um indivíduo e se refere às suas próprias vivências e experiências, mas que possuem também aspectos da memória do grupo social onde ele se formou, isto é, onde esse indivíduo foi socializado. É, assim, o indivíduo livre de interesses políticos e sociais, tão necessitado de um sentido para sua vida quanto seus similares, constrói sua história com elementos espirituais e materiais. As pessoas guardam seus objetos como os seus saberes e fazeres manuais oriundos do contexto familiar, podendo resgatar a memória e, consequentemente, de sua própria condição humana. O bordado na cama, para nós, é uma extensão de nossos corpos e seus territórios de ação e repouso, percepções e emoções, identidade e memórias. Infinidade de pontos como os segundos em um dia inteiro de vida. A nossa vida, assim como de nossas mães e avós e quantas que nos antecederam e também bordaram seus desejos e saudades em tecidos onde ninavam seus filhos, deitavam-se com seus amores e secavam seus corpos depois de banhar-se em águas calmas.

Na decisão da narrativa a ser bordada no colchão as artistas lançam mão de sua intimidade, de suas histórias e biografias, como referência estética ou conceitual para as suas produções artísticas, na tentativa de resgatar e compreender, muitas vezes, suas identidades.

Canton (2001) argumenta que “a memória, física e psíquica, garantia maior de nossa condição humana, torna-se também uma das principais molduras da criação artística contemporânea” (op.cit, 2001, p.43) e uma abrangência de discursos sobre a fragilidade e estranhezas do corpo, a identidade, a abordagem frequente das tênues fronteiras entre os espaços públicos e privados, o contexto urbano, a diversidade cultural, de gênero, o uso de ferramentas tecnológicas e digitais em nossas vidas. Com a apresentação destas questões a cama compartilhou espaço de significados na exposição O Corpo Na Linha de Borda no Museu Municipal em Curitiba. Neste convívio na instituição Giovana e Leila colocam o objeto íntimo “cama” sobre as porcelanas frágeis que as acompanham desde o início de sua parceria; durante anos bordaram aspectos femininos sobre elas como que aprisionando nelas seus conceitos. Na cama o bordado vai a superfície e escancara, nos corpos femininos nus, toda a fragilidade e incertas perspectivas da qual se configura ao olhar do público. A água, esse elemento movente e instável, em passagem simbólica para a imaginação individual no bordado, se concretiza nos territórios de paisagens de lugares dos percursos das artistas. As paisagens são transformadas em caminhos, em vias para as idas e vindas, em lugares de mulheres. Junto aos corpos os fios desenham a vegetação e as águas reais de rio, lagoa e mar e no etéreo as águas imaginárias se estabelecem no imaginário individual e coletivo. (BACHELARD, 1985, p. 14):

“Certas formas poéticas se nutrem de uma dupla matéria; que um duplo materialismo trabalha frequentemente a imaginação material. Em certos devaneios, parece que todo elemento busca um casamento ou um combate, aventuras que o apaziguem ou o excitem. Em outros devaneios, a água imaginária nos aparecerá como elemento das transações, como o esquema fundamental das misturas”.

Considerações finais

Quando unimos Arte e manualidades têxteis criamos uma parceria de vivências mais intensas, mais presentes nas discussões fronteiriças, entre elas tornam-se para nós. Ao mesmo tempo em que a memória é pensamento vivo, sua força de coesão e existência se deve pelo ato de evocação na Arte e permanência no contexto de um grupo, demonstrando sua importância em estar na sociedade. Na obra Descanso entre desejos e saudades é água leve em um sonho, Giovana Casagrande e Leila Alberti buscaram nas memórias de família, em especial das mulheres, e estabeleceram conversas e anotações em caderno de processo e perceberam a presença da água em relatos de vida, sonhos e esboços. A introspecção do período pandêmico e um tempo maior de envolvimento com o processo em coletivo fez as percepções sobre o corpo serem mais facilmente evocadas. Nesse percurso, tivemos como algumas das questões investigar e refletir as relações afetivas da materialidade têxtil e as inter-relações do corpo com o espaço; nossas fronteiras relacionais. E, experimentar; esta é uma ótima palavra para definir o projeto O Corpo na Linha de Borda no qual somos mulheres artistas coordenadoras e resistentes na intenção de percorrer novos caminhos na criação valorizando antigas linguagens têxteis.

Os muitos encontros virtuais nos proporcionaram um maior interesse em lembrá-las, e conferimos sentidos e importância às mesmas, ou seja, quando algo vivido realmente nos afeta, nos estimula a lembrarmos mediados pelas sensações e marcas proporcionados ao que se recorda. Isso potencializou a comunicação dos artistas com o público e proporcionou desdobramentos com a apresentação da exposição O Corpo na Linha de Borda à itinerância para outros estados e uma residência artística no Museu Bispo do Rosário no Rio de Janeiro.

GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Cartografias do Desejo. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1996.
GUIMARÃES, Mariana. O fio como paisagem na mediação casa, corpo e obra. In: Encontro da Associação Nacional dos Pesquisadores em Artes Plásticas, ANPAP, 26., 2017, Campinas. Artigo. Campinas: [s.i.], 2017. v. 1, pp. 1 - 11
BACHELARD, Gaston. A Água e os Sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. Tradução de Antonio de Padua Danesi. são Paulo: Martins Fontes, 1998.
CANTON, Katia. Novíssima arte brasileira. São Paulo: Iluminuras, 2001.
CATTANI, Icléia Borsa (Org.). Mestiçagens na arte contemporânea. Porto Alegre, RS: Ed. UFRGS, 2007.
https://www.fastore.pt/museu/correnteza.htm