Antes de ter sido convidada a apresentar Bordaduras/Coisas de Alice, tive oportunidade de acompanhar o trabalho de Leila Alberti
e Giovana Casagrande durante o período em que parte das obras reunidas neste livro ficaram expostas na Galeria Orbitato, em 2015.
Pelos feitos da internet, há pouco tempo tive a alegria de reencontrar Leila, com quem estudei pintura na Escola de Música
e Belas Artes do Paraná. Pintora atuante, consistente e bem sucedida, ela me apresentou, na época, o trabalho que vinha desenvolvendo
havia alguns anos: Coisas de Alice, em parceria com Giovana Casagrande, formada na mesma escola, anos depois. Para Leila, a cor é
um tema muito importante e para o qual tem particular talento.
Giovana é ceramista. Tive mais contato com seu trabalho em Coisas de Alice, mas entende-se logo que ela é uma artista visceral, que
trabalha rápido e tem apetite pela materialidade.
Eu trabalho com têxteis há muito tempo. Devo advertir que minha relação com eles é muito mais de paixão do que conhecimento técnico.
Sou apaixonada pelas raízes históricas e pelos materiais semelhantes encontrados nas mais diversas técnicas dos fazeres têxteis.
Presentes nos lugares mais distantes do mundo, eles se relacionam com nossas emoções e fazem parte do nosso dia a dia.
Divido então algumas percepções e reflexões sobre o Bordaduras. Me atenho ao que considero um ponto central: o material de que
é feito, tanto causa quanto resultado de uma proposta estética.
Seria necessário abordar as técnicas – cada qual em seus detalhes, cada um dos materiais e suas proveniências. Há o tema do feminino,
inegável quando se fala em têxteis, e tudo o que é artesanal, manual, doméstico.
Em Bordaduras, o têxtil vem associado à porcelana de mesa, branca, o que remete imediatamente ao dia a dia de uma população
gigantesca; ao ato de colocar e tirar a mesa, lavar a louça, enxugar a louça... Não representa qualquer tarefa cotidiana, mas
aquelas que estão ligadas à alimentação, nutrição e todas as suas implicações de afetos, convivências e formalidades que estão
relacionadas.
Ao mesmo tempo em que remete ao dia a dia, Bordaduras fala de fantasias. Assume inicialmente uma relação com expressões visuais
de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Porém, o trabalho logo ultrapassa os limites dessa associação e segue um caminho
de pesquisa e ampliação, descobrindo quem é ou o que pode chegar a ser. Bordaduras é um trabalho que se amplia.
Existe muito a ser dito a seu respeito. É um elogio original e íntimo à fantasia e à liberdade, sob aspectos diversos. Tem um
longo caminho percorrido, com constante produção e aprimoramento, desde 2010. Um trabalho que tem fluência e é expressivo
em estética, técnica, temática e linguagem. A pesquisa é grande e profunda e o resultado é profuso e rico.
Antes de ser o que é agora, Bordaduras já foi outras coisas. Transformou-se ao longo de sua existência; amadureceu, assumindo
uma dimensão que só assumem aqueles que se permitem fazer o caminho da vida; que não se limitam a objetivos pré-determinados;
que aceitam evoluir, mudar e crescer. Justamente por isso, Bordaduras chegou a um ponto de maturidade em que se permite transformação
contínua, fazendo da evolução sua natureza. Vira projeto e segue sua trajetória, sendo por isso um trabalho consistente.
É também surpreendente, pela razão óbvia de que causa surpresa. O inesperado está na combinação de ousadia e delicadeza e também
no volume de desdobramentos que encontra em técnicas e estéticas. Provoca, com frequência, uma sensação rara no momento em que
vivemos – de perda da noção do tempo. Surpreende porque mistura coisas que raras vezes vimos misturadas; e porque conta histórias.
Bordadura envolve os observadores da mesma maneira que os materiais têxteis envolvem as porcelanas.
Há também uma surpresa no fato de que Bordaduras representa um conjunto consistente e ao mesmo tempo em que fala a mesma fala, permite
que cada peça seja uma fábula por si só.
Tive a grata satisfação, em muitos momentos, de observar observadores e pude, desta forma, acompanhar o encanto que Bordaduras pode
provocar. Vi crianças, artistas, leigos, interessados em artes e ofícios, pessoas das mais diversas procedências etárias,
profissionais e culturais se deliciando com os contos e as formas por meio das quais estão executadas e exercitadas essas bordaduras.
Vários foram os que descreveram a sensação de serem tragados para dentro de um mundo particular e de terem perdido a noção da hora.
A brincadeira de escolher imaginariamente a que “eu escolheria”, que tantos de nós fez tantas vezes na infância, também foi reação
recorrente durante o período em que convivi com a exposição de parte do trabalho – o que indica o nível lúdico ao qual o observador
é remetido. Há o conjunto e há cada parte, e cada uma delas fala direto ao coração.
Outra surpresa está nos materiais e técnicas empregados na construção deste conjunto de obras. Foi a primeira vez que vi porcelana
combinada com coisas têxteis em obras de arte. Porém, todos nós, todos os dias, nos relacionamos simultaneamente com têxteis
e porcelanas quando estamos à mesa. Mas não é bem o ineditismo da mistura que vem ao caso e sim a construção da linguagem com que
os materiais vêm sendo explorados pelas autoras; este ponto de partida cotidiano, que nos traz uma sensação de intimidade com a matéria
de Bordaduras, ainda que envolta em estranheza.
A brancura, dureza, lisura, frieza e a polidez da porcelana se opõem à cor, à maciez, à flexibilidade, à diversidade de aspectos
e à suavidade dos fios de matérias diversas. Lãs, sedas, algodão, poliéster, fitas, linhas, fios, filamentos... Tudo se conjuga sob
técnicas manuais, em especial crochê e bordado: desde a construção de um revestimento primário – um crochê aberto, que abraça a porcelana
como uma rede – até bordados com grande capacidade de expressão, que vão de pontos nomináveis até maçarocas apressadas de fios que
precisam com pressa expressar-se, completando-se.
Atenção constante aos dois elementos essenciais que encontramos em Bordaduras: porcelanas e linhas constróem este trabalho. Ampliam
o glossário por meio da experiência, senão de técnicas como tal, de habilidades que permitem, de uma forma crescentemente sofisticada,
revelar imagens.
A coleta dos materiais vai assumindo possibilidades à medida que aumentam arsenais de cores, texturas e lisuras por um lado e de formas,
símbolos e uma imensa variedade de brancos por outro.
A porcelana vem de antigos estoques de fábricas desativadas em Campo Largo, no Paraná e de outros espólios comerciais garimpados
por Leila e Giovana, além de peças ainda em produção, comercializadas na mesma região, e até de novas peças, cujos moldes foram feitos
por elas próprias.
Os fios vêm sendo coletados desde que o trabalho foi iniciado. Com entusiasmo crescente, a coleta ganha viés de pesquisa quando atenta
para performances dos fios, texturas resultantes, aspectos e sobretudo cor - que é um elemento de expressão importante para Bordaduras.
A associação do aspecto cor, tão amplo na área têxtil, com sua infinidade de aplicações e estéticas, se presta completamente aos propósitos
deste trabalho. Bordaduras trata a cor como tinta, com construções de massa de cor, analogias e contrastes, interesse por nuances e matizes.
Difícil falar de crochê e bordado e não pensar no feminino. Não como gênero, mas como atitude. O fazer constante, paciencioso, cioso,
a atitude guiada pela mão – especialmente neste caso, em que não há expectativa de uma regularidade. Há, sim, a expectativa de um
relacionamento entre materiais.
A surpresa não está apenas no resultado, mas em cada momento do fazer, que implica fundamentalmente no estabelecimento de relação entre
materiais que a priori não se relacionam. Há uma tutela de quem faz, por assim dizer, para que porcelana e têxtil dialoguem e cheguem –
apesar de suas contradições – a uma história comum, que ganha o atributo principal de fantasia.
Se a porcelana oferece estrutura e solidez, também apresenta fragilidade e delicadeza. Os talentos têxteis, por sua vez, contribuem
com tenacidade, flexibilidade capacidade de envolver. Como em quase todos os outros âmbitos em que é empregado, o têxtil vem representar
conforto, proteção e aconchego. Há um dialogo íntimo que faz desta mistura uma relação terna e tocante. Não é à toa que observadores
perdem a noção do tempo. Em cada uma das peças, bem como no conjunto, estamos sempre em frente a uma história de relacionamento,
de envolvimento. De certa maneira podemos dizer que, ao observar Bordaduras, observamos amor entre os materiais - o que sustenta,
por si só, a mais profunda compreensão que podemos ter do que é a fantasia.
NARRATIVAS
A combinação de materiais e técnicas permite, por si só, ampla gama de possibilidades e dá às artistas um vasto espaço de trabalho.
Mas há também o reconhecimento de um aspecto lúdico que vai de várias formas se cristalizando sob a percepção de um universo que, cedo
ou tarde, ganha o nome de fantasia. Os vários elementos reunidos para construí-la, inclusive os materiais e as técnicas, contribuem
para essa percepção. Há fantasia na narrativa, concretizada sob a versatilidade técnica do crochê, que reveste peças de porcelana
branca, ou, dito de outra forma, colagens, assemblagens de porcelana branca, revestidas por invólucros de fios coloridos feitos em
crochê e finalizados por bordados.
Nas formas em que o crochê permite, em particular nas formas circulares, confundem-se as funções de estrutura, decoração e narrativa.
Surgem descrições espontâneas: flores, sóis, estrelas e galáxias, em figurações ambíguas – da mesma forma que, ao observarmos manchas
circulares de muitas cores pintadas por Klimt, vemos jardins ensolarados. Um fio que vem sendo crochetado passa a ser usado com outro
raciocínio e começa a bordar. Passa de estruturar a contar: há mais narrativas no bordado e daí vão surgindo histórias.
E as narrativas vão surgindo apoiadas no crochê, que se presta a geometrias por bordados que vão aos as poucos acrescentando detalhes
às sínteses obtidas, tornando visíveis de maneira claramente intencional o que antes era sugestão, ilusão, desejo de ver.
O bordado assume a função de dizer:
– Sim, estás vendo o que pensas que vês; este bule é na verdade um coelho; este bule é na verdade
um jardim; esta xícara é na verdade um ninho frequentado por dois pequenos cervos... Por dois pequenos passarinhos.
Ou então:
– Não, não é apenas tua imaginação, vês aqui um céu de mil galáxias e à frente há uma árvore e uma andorinha te brindando
com um primeiro plano, como se fosse este um portal para que entendas que o mundo é feito de possibilidades.
É isso que dizem essas misturas improváveis ao observador que se permite observar. Há uma fala inegável entre materiais:
– Eu cedo a estrutura, diz a porcelana. – Eu cedo um plano, uma base, sou para ti uma tela nua.
E a linha responde:
– Eu cedo o afago, eu te abrigo, te visto, te protejo. Eu, macia e flexível, recebo tua brancura com uma festa
de cores que preparei no calor das emoções fiadas e tecidas.
– Eu te conto segredos, dizem os fios. – Eu te revisto de fantasias, te celebro de flores, conto histórias nas estruturas que
me cedes, falo de amores, de lugares, de paisagens, de memórias...
– Nós te revestimos de emoções, das compreensões que se pode ter nesta vida. Te envolvemos em lendas, em lembranças – dizem os fios
todos juntos tecidos, bordados, crochetados, enosados.
– Vem que eu te visto, dizem os fios.
– Vem que te seguro, diz a porcelana. – Me dá teu bojo grávido de espaço, teus vazios revestidos de brancura, que eu te alimento
com minhas cores, respondem os têxteis.
– Abre tuas asas e teus bicos de bules –, dizem as lãs dos fios mais quentes e grossos – que eu te envolvo com meu calor e maciez.
A seda fala:
– Me dá tua lisura, que eu te enfeito com a finura de meus fios brilhantes e te revisto de reflexos e luzes.
E a porcelana diz:
– Me cedes o amor das cores, que em contrapartida fico aqui, firme e forte, bastando para isso que ninguém
me derrube. Sustento, finíssima, a história que quiseres contar, para que se revele a todos o peso do esquecimento em que eu vivia, em
caixas empoeiradas... Vem com tua riqueza emaranhada e disforme, que te espero com pedaços de tampas de bules quebrados. Encontro, afinal,
um novo conto para meus arabescos tornados inúteis e te sirvo para que te estires e te lances no espaço branco de minhas volutas esquecidas.
E não precisas afinal, se não quiseres, falar de causos, meninas, riachos, pombas e outros pássaros. Podes ser apenas fios de cores que me
vitalizam sem nada contar. Cavalos velozes, encontros fugazes, nuvens, ventos... Vem que eu te sustento com minha frágil rigidez.
– Vem com tua frágil rigidez que re revisto com minha inconsistência, responde o têxtil.
E respondem os fios:
– E podes tu, porcelana, não ser bule, nem xícara, nem nada. Podes esquecer teu passado de utilidades e ser apenas alva,
rígida e frágil, que é tua natureza; sem mais forma e expectativa definida, sem utilidade maior que te prestares ao meu abraço, não mais
que o engenho de seres argila convertida na finura que és, na brancura que és.
E continuam:
– Vem que eu te dou uma andorinha para encimar tuas histórias, uma que estava perdida em uma fábrica que estava esquecida. Sabes
como é, ninguém usa mais andorinhas de porcelana... Vem, meu amor, bule de porcelana encimado por esquecida andorinha, que aprendi pontos
novos, e desta vez te recubro de brancos opacos e brilhantes de lãs quentes e de sedas. Assim, nós dois, diferentes, improvavelmente reunidos,
podemos inventar um novo todo completo, frágil e protegido a um só tempo, frio e cálido, rígido e flexível; podemos brincar de equilíbrio.
E ficam, neste diálogo contínuo, porcelana e fios.